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07/08/2012
DISCRIMINADO, PERSONALISTA, GUERREIRO E APAIXONANTE, O FUTEBOL FEMININO DO BRASIL TEM NA HISTÓRIA, RAÍZES QUE TEXTO OU VAIDADE ALGUMA PODE APAGAR
  • O início da década de 80 no ambiente desportivo do Brasil foi marcado principalmente pelo inconformismo com a derrota da Seleção Brasileira na Copa de 1982. Após o massacre inicial da crítica e muitas piadas, lembrando em parte o clima que cerca várias modalidades exatos 30 anos depois nos Jogos de Londres. Aquela Seleção de Zico, Sócrates e Telê Santana seria mais tarde reconhecida pela sua técnica e ousadia em representar o puro futebol arte.
    Na mesma época, as nossas pioneiras do futebol feminino do Brasil deixavam os mais distantes pontos do Brasil, em viagens de ônibus que chegavam a levar três dias, para buscar um lugar nas equipes que começavam a quebrar o preconceito dos meios de comunicação e se faziam reconhecer pelo País. Assim surgiram num primeiro momento o Radar, do Rio de Janeiro, as Panterinhas de são Paulo (seguida pelo Isis Pop), e o Cruzeiro de Belo Horizonte. Já consagrado nas areias de Copacabana no futebol de areia masculino, o Radar lutava desde 1981 para realizar a primeira edição de um Campeonato Brasileiro. Para desespero dos dirigentes, quando o sonho parecia se concretizar, as autoridades desportivas do Rio de Janeiro informaram que em respeito às normas do antigo Conselho Nacional de Desportos, os estádios públicos não poderiam ser utilizados, já que era expressamente proibida a prática do futebol pelas mulheres. Sob o risco de prisão por desobedecer as ordens de cancelamento, os dirigentes e atletas daquela época decidiram afrontar o governo, e realizaram a competição nas areias de Copacabana. Os banhistas que se acumularam ao redor dos campos improvisados, eram embalados pelos sambas enredos que tomavam as rádios e rodas de samba do Rio, em especial o “Verde que te quero Rosa”, da Estação Primeira de Mangueira, que cantava Cartola. E vibraram muito ao testemunhar nas areias toda a genialidade de uma geração inesquecível, com Meg, Russa, Marisa, Márcia Honório, Pelezinha, Dicró e Fia, dentre outras.
    Pela primeira vez, as mulheres que praticavam futebol ganhavam o noticiário nacional, e o clamor público impediu que os participantes fossem presos. Sem dinheiro publico ou grandes patrocinadores, foi do bolso desses abnegados pelo futebol feminino que nasceu a raiz que permitiria florescer a modalidade a partir da liberação da prática do futebol feminino ocorrida numa apaixonada defesa feita pelo pioneiro Eurico Sansoni Lyra Filho, Presidente e fundador do Radar, e muito bem acolhida pelo Sr. Manoel Tubino, Presidente do CND, numa história reunião ocorrida em Brasília. Levantada a proibição e já com acesso aos gramados, São Paulo passou a rivalizar as competições domésticas com o Rio de Janeiro, através das lendárias equipes do Saad, das craques Mara, Simone, Fininha e Silvinha e do Juventus, na época comandado pelo Vanderlei Coelho que revelaria a fantástica Roseli; e com Minas Gerais, sede do Cruzeiro, da atacante Nunes e da zagueira Rosa. Ainda em 1983, as mulheres teriam acesso aos gramados do País, e a Prefeitura de São Paulo realizaria a I Taça São Paulo de Futebol Feminino, iniciativa do desportista Fábio Lazzari, o mesmo criador da versão masculina que perdura até hoje. Foi nesta competição que se descobriu pela primeira vez o talento da artilheira Michael Jackson, Campeão pelo Tupi de Santa Catarina, e da atleta do século Sissi, que dava os seus primeiros passos pelo Flamengo de Feira de Santana. O Rio de Janeiro ficou com a sede da II Taça Brasil, na verdade a primeira disputada em gramados, e que teria o Radar como Bi-Campeão...
    A TV Bandeirantes tinha a sua programação esportiva comandada pela empresa Luqui (que originaria a Sport Promotion), num ato de coragem do Quico, Paulo Roberto e Luciano do Valle colocou os jogos da modalidade em rede nacional no Desafio Band, nas tardes de domingo, consagrando e gerando recursos que permitiram a subsistência digna da nossa primeira geração de craques por alguns anos.
    No âmbito interno, a vida das equipes que estavam fora da grade de televisão era cercada por dramas. Muitas jogadoras foram expulsas de casa pelos pais, e abrigadas por dirigentes que muitas vezes lutavam com dificuldade pelo sustento das próprias famílias. Tivemos o assassinato de atletas por preconceito, ciúmes e também mortes em acidentes pelas formas precárias de transporte. Com a maioria das atletas saindo das camadas mais pobres da população, sobretudo das favelas do Rio e São Paulo, eram comuns as charges em jornais e piadas nos mais diversos humorísticos contra a “abominação” que representava a presença das mulheres nos campo de futebol. Trabalhar numa equipe de futebol feminino era uma aventura imensa, e levou muitos abnegados à completa ruína, muitas vezes não apenas material.
    Jogos noturnos eram um pesadelo, pois a maioria dos clubes não tinham dinheiro para pagar um hotel ou mesmo o táxi para as jogadoras, e os transportes coletivos paravam por volta da meia noite na maioria das cidades. Jogadoras se aglomeravam na casa de treinadores e dirigentes, que muitas vezes acumulavam as duas funções, e perdiam a família, o casamento, mas não “deixavam as meninas na mão, como se dizia na época.
    Alguns clubes chegavam a viajar para competições nacionais, sem ter a certeza de conseguir voltar, pois faltava o dinheiro para o combustível do ônibus e o lanche das meninas, e cabia aos clubes mais estruturados como Radar e Saad, dar uma mão no final do campeonato...
    Com as atletas frequentando o ambiente familiar dos técnicos/dirigentes, o futebol feminino deixou de representar entidades para se tornar cada vez mais personalista e egocêntrico em alguns casos, pois no topo da pirâmide as três ou quatro grandes equipe do país sempre queriam o degrau mais alto. E foi assim, sem dinheiro publico, sem patrocinadores, lutando contra tudo e contra todos, e até sob o risco de prisão, que dirigentes abnegados se irmanaram às nossas primeiras craques, para chorar seus mortos, treinar, e levar o futebol feminino ao pódio logo em seu primeiro mundial. Brigas de atletas e dirigentes foram constantes, é verdade, e quase sempre terminavam em reconciliações apaixonadas, como entre irmão, pais e filhos, etc.
    Esse texto descreve em linhas gerais o drama dos primeiros anos da modalidade do período pré-legalização em 1982 até o I Mundial experimental patrocinado pela FIFA, disputado na China em 1988. 30 anos depois, a realidade das meninas mudou muito. A começar pelo número de praticantes no Brasil, multiplicado por 100; na presença de meninas das classes média e alta; e na estrutura de equipes e competições. O programa Bolsa Atleta garante uma renda básica quadrienal para cada geração Olímpica, e as meninas não chegam ao país sob o fantasma do desemprego. Apesar da crise na Liga Americana, o mercado externo hoje é uma realidade atraente, para mais de 60 jogadoras brasileiras, enquanto nos anos 80 tivemos apenas duas pioneiras que conseguiram fazer essa transição, a volante Lúcia e a atacante Michael Jackson, que atuaram na Itália. Muitas equipes do Brasil sobrevivem com dinheiro público e apoio de prefeituras, e já existem patrocinadores interessados nas Musas da modalidade, hoje muito bem representadas pela Dani Pato, por exemplo. No ambiente pós eliminação de Londres, muito se discute sobre as causas da derrota e os novos rumos para a modalidade, e muita gente que se senta confortavelmente atrás do computador sem nunca ter investido um centavo na modalidade, pode democraticamente expressar seus pontos de vista e opiniões livremente, e certamente excessos ocorrem pela paixão. Como participante desta longa história de lutas, que já atravessa quatro décadas, uso esse espaço para reiterar o orgulho que o Saad Esporte Clube, e todos os seus dirigentes e atletas tem de sua história, que se confunde com a da própria modalidade em si. Vamos sempre levantar nossas conquistas, manter em mente as lições que aprendemos também com as adversidades superadas ou não. Temos um desfile de gerações na memória, que se inicia no transferência da equipe do Guarani para o Saad com a Mara, Fininha, Simone e Silvinha em 84, passando pelo pioneirismo da implantação do trabalho de base no Brasil como o Fernando, a Rosângela e a Ivete lançando a Rose, Carol, Mônica, Talita, Aninha, e Juliana; chegando às craques dos títulos brasileiros dos anos 80 e 90 como Sissi, Adriana Bebeto, Márcia Tafarel, Tânia Maranhão, Michael Jackson, Marisa, Kátia Cilene; e a geração que nos deu a Primeira Copa do Brasil disputada na história em 2007, comandada pela Roseli ao lado da Dani Alves, Giovânia, Andréia, Bruna, Maycon e Vanessa. Temos que homenagear aqui todas as demais companheiras que completaram estas equipes, cujos nomes não permitiriam concluir este texto dentro de um tamanho aceitável para o leitor, mas que em nossos corações tem a mesma importância. Como treinadores, passaram grandes nomes que já partiram, como o Filpo Nunes, Zé Duarte e Geraldo; e profissionais que continuam na ativa como o Zé Roberto, o Ademar Júnior, e o Marcelo Frigério. Tivemos também mulheres brilhando no comando técnico, como a Gui e a Marlova nos anos 80, e mais tarde a Ivete Gallas e a Marisa.
    Democraticamente estamos atentos e vamos cuidar com todo o carinho do lugar que a história nos reserva, mas quando o assunto for pura e simplesmente futebol feminino, vamos nos reservar sempre o direito de ser passionais e apaixonados, já que a história nos confere este direito enquanto o bom senso recomenda ponderação. Mas para discutir a fundo, preferimos nos dedicar a quem investiu e sabe sobre o que está descrevendo ou criticando. A quem passou apenas seis meses no futebol feminino e diz ter todas as soluções para o esporte, convidamos a se retirar da ocupação atual e investir 30 anos na modalidade, daí teremos tema para uma boa conversa e não oportunismo barato!